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A ressaca do Twitter

setembro 6, 2012
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Pensei em chamar o post de “O Funeral do Twitter”, mas achei um pouco pesado demais. O que está acontecendo é que o uso do Twitter caiu 24% no último ano no Brasil. Para nós, fanáticos pelo site desde 2008/2009, é notável que a graça vem caindo, as brincadeiras não emplacam tanto e as turminhas foram se dispersando. Nos EUA, porém, a rede continua crescendo num ritmo semelhante ao dos últimos anos. Que diferença temos em relação a eles?

O Twitter por aqui sempre foi uma grande brincadeira. A metáfora que eu sempre gostei de usar é a da sala de aula. Na frente sentavam os estudiosos que souberam usar a ferramenta para se destacar, mesmo que por vezes caindo no ridículo: Felipe Neto, Pece Siqueira, Rafinha Bastos, Carlos Cardoso. No fundão sentava a galera da zueira, os ditos trolls, blogueiros que sacaneiam celebridades e outros tipos de agitadores das massas. No meio da sala sentam as pessoas que ou estão ali para adorar os que sentam na frente, ou para infernizá-los, caindo nas pilhas da turma do fundão e se divertindo com eles. Os primeiros anos escolares foram muito divertidos, mas essa fórmula acabou se desgastando com o tempo. Na minha opinião, o que foi dando errado era a falta de propósito. Numa escola de verdade, apesar de todas as amizades, brincadeiras e brigas, a razão de se estar ali é aprender se formar. Existe até um tempo regulamentar para isso. O que acontece em paralelo ao que está sendo ensinado, todas os laços que se fazem e desfazem, são apenas um colorido de uma trama que se apoia, na verdade, no saber. Já o Twitter não tem esse tipo de propósito. O que foi acontecendo é que algumas pessoas começaram a acumular alguns milhares de seguidores, ficar famosas nesse pequeno mundinho, começaram a ser reconhecidas como criativas/engraçadas e logo depois perceberam que não ganhavam nada com isso. Ninguém vai te dar um emprego se você tem 10 mil seguidores e te deram muitas estrelinhas no favstar. No máximo você pode fazer muitos amigos, contatos, e esses sim podem te dar algo de útil, mesmo que seja apenas uma cerveja.

Acredito que nos EUA muitas pessoas usem o Twitter para seguir as celebridades das quais são fãs, alguns políticos, artistas em geral, sites de informação, etc. Aqui também se usa para isso tudo, mas muito mais para tirar uma graça das coisas da vida. E eu acho que é justamente a dureza da vida -a necessidade de se fazer alguma coisa que vá render o dinheiro do aluguel -que está matando o passarinho azul no Brasil. Uma pena. Tão jovem…

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Os Beatles e a perfeição

setembro 3, 2012

Tenho lido cada vez mais textos e conselhos do tipo: se você está errando, isso significa que você está fazendo alguma coisa. Acho que serve para a maior parte das coisas da vida, mas eu estou falando especificamente sobre produzir alguma coisa; um texto, um desenho, uma música. A razão pela qual venho buscando esse tipo de motivação é o de me encontrar terrivelmente engessado neste quesito, tendo deixado de lado a maioria dos meus pequenos projetos, entre eles este blog. Passei grande parte da minha vida ouvindo coisas do tipo “como você escreve bem!” ou “como você desenha bem!”, entre outras coisas. Esses elogios, ao contrário de me incentivar a produzir mais, pelo contrário, justamente me fizeram ter cada vez mais medo de errar. Medo este que é o principal fator gerador de nada.

 

Ainda pensando sobre isso (a criação), eu estava agora percebendo o por que de gostarmos de algum artista em especial. Claro que precisamos gostar de sua obra, sua produção, mas invariavelmente levamos também no pacote suas ideias (que nem sempre tem a ver com o que ele produz), seus valores, seu modo de ser em geral e até sua história e o que ele representa. E como a maioria das pessoas sabe, nenhum artista me toca mais do que os Beatles e eu consegui entender perfeitamente quais são esses fatores extra-musicais que fazem com que eu me encante com tudo que diz respeito a eles. Os Beatles são a exceção da exceção no que diz respeito a história da produção musical e até de outras formas de expressão artística, simplesmente porque foram “perfeitos”, por mais que isso possa soar apenas uma opinião embaçada de um fã. Mas o que eu quero dizer com “perfeitos” é que todos os 13 álbuns que eles lançaram durante sua carreira hoje são considerados clássicos, classificação para a qual a revista Rolling Stone dá cinco estrelas. Mesmo com Beatles For Sale não sendo nenhum Abbey Road, no contexto musical ele acabou se tornando também um clássico, tornando a discografia dos Beatles um caso totalmente incomum. Todas as outras bandas que eu admiro muito como Queen e Led Zeppelin tiveram seus momentos fracos, seus álbuns que só quem é muito fã acaba escutando. Esse é um “problema” que os Beatles jamais tiveram que enfrentar nos sete curtos anos que sua carreira de estúdio durou. Está aí outro número impressionante para se considerar: 13 discos em 7 anos.

 

A questão é que os Beatles são a maior, mais importante e melhor banda de todos os tempos. Maior porque foi a que mais fez sucesso e vendeu discos. Mais importante porque foi a que mais influenciou outros artistas. E melhor na minha humilde opinião. Mas como eu já disse, eles foram a exceção da exceção e, apesar de terem uma história inspiradora, não podem servir de objetivo de comparação para ninguém que almeje produzir nada. Os fatores que os levaram a serem o que foram são muitos, entre eles um timing que jamais existirá de novo. Nesse ponto é que eu como fã me agarro a esta perfeição que mais me assusta do que me inspira e fico pensando no quanto eu sou pequeno em relação aos meus ídolos; insignificante até. Da mesma forma que um adolescente revoltado escuta bandas que expressem essa revolta e fãs de divas se sintam mais femininos quando escutam suas musas, creio que me apeguei aos Beatles quando fui percebendo o quão perfeita era sua história, do começo ao fim rica, interessante, criativa e para usar uma palavra que frequentemente é atribuída a obra deles, mágica. Só que a vida não é tão mágica assim e se torna cada vez mais necessário para mim que eu me entregue aos erros para que possa acertar em algum momento. Se eu não tenho o talento de Paul McCartney, isso não significa que eu não tenha talento algum, ou todas as pessoas que me disseram que eu tenho (incluindo minha intuição) estariam erradas. A verdade é que nem Jesus agradou a todos; nem os Beatles agradaram! Muito mais difícil do que aprender uma técnica, aperfeiçoá-la, criar um estilo e se expressar é dar a cara a tapa. Esse talvez seja o desafio maior do artista.

O papel velho

maio 23, 2012

Ontem, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, uma das maiores de São Paulo, reparei nos outros artigos que ocupam espaço entre os livros e só então me toquei que esse tipo de estabelecimento, as grandes livrarias, são um dos poucos lugares onde ainda se vende CD’s. A loja de discos já faliu, por motivos óbvios, e grandes cadeias de varejo como as Americanas só vendem o top 10, deixando pras livrarias a única possibilidade de encontrar fisicamente alguma variedade musical. Nesse local especificamente os CD´s se encontravam totalmente desorganizados, como se conformados com o abandono. Ganhando espaço estão os LP’s, em busca de colecionadores e hipsters que ainda podem estar dispostos a pagar por um objeto circular para extrair música dele. Engraçado pensar que o livro, centenário, pode estar salvando ou pelo menos dando espaço para o CD, uma mídia muito mais nova.

 

No meio das milhares de livros nos três andares da Cultura, um tímido e-book reader, já de geração ultrapassada, despertava a curiosidade de quase ninguém. O mercado de e-books no Brasil ainda nem está engatinhando e a Cultura exibe o artigo mais como algo exótico do que como um presságio apocalíptico sobre o fim do livro de papel. Por aqui as pessoas ainda querem cheirar o livro novo e depois curtir vê-lo empoeirar nas estantes de casa, materializando o conhecimento adquirido. É assustador, ou pelo menos pouco romântico, pensar que todos os três andares daquela livraria caberiam num único e-reader. Além das editoras se apavorarem com a ideia do livro digital fazer com o livro físico o que a mp3 fez com o CD.

 

Nos EUA, a Amazon já vende mais e-books do que livros físicos há algum tempo. A loja em si, antes conhecida como “maior livraria virtual do mundo”, foi esperta o suficiente pra entrar cedo do mercado dos livros digitais (com o Kindle) e de não se apoiar somente nas vendas de livros e discos, estendendo seu mercado para coisas que nunca poderão ser baixadas, como iPads e desentupidores de pia. O americano, que lê muito mais que o brasileiro, já iniciou seu processo de desapego com o papel velho e percebeu que o que realmente importa e fica é o conteúdo, este muito mais facilmente adquirido e armazenado por meios digitais. E as pessoas? O que elas iriam fazer na livraria de três andares se de repente acreditassem que ela caberia inteira na sua bolsa? Sinceramente eu não sei. Talvez tomar um café.

Sobre o sentimento que talvez exista

maio 1, 2012

Desde que pus meus pés no túmulo do samba, os habitantes da minha terra (o estado da Guanabara) me perguntam: existe ou não existe amor nessa tal São Paulo? Creio que com pouco mais de um mês morando aqui eu já possa fazer um esboço de resposta, que não poderia ser mais inconclusiva: existe e não existe, como em qualquer lugar. Mas será que aqui existe menos ou de maneira menos intensa? Senão, qual o motivo da ênfase geográfica que o Criolo dá?

 

 Os paulistas definitivamente estão com mais pressa que os cariocas. Entre outros clichês, são especialistas em falar sobre trabalho o tempo inteiro que não estão no trabalho, como se isso os relaxasse. Eu escuto, às vezes até atento, mas prometendo a mim mesmo não me deixar levar por essa mão bruta que empurra os paulistanos (ou quem aqui habita) e querer sempre mais, fazer sempre mais, mais rápido. Descobri que, apesar dessa fama da cidade ser verdadeira, muitas pessoas vem para cá justamente para ditarem o próprio passo de suas vidas, sem serem levadas pelo modo de operação do local. O Rio de Janeiro ou Salvador são cidades que funcionam a um passo que pode irritar os mais ansiosos. Por mais que possuam uma grande beleza natural, existe muita gente que não quer ser carregado no colo pela Mãe Natureza, que quer fazer mais do que assistir o que já foi feito. Acho que é por isso que São Paulo ou outras cidades como Nova York foram se tornando um ponto de encontro de pessoas de todos os cantos, das mais diversas, e assim vão criando o seu próprio mundo, descobrindo seus “iguais”. Para não parecer apenas teórico, vou dar um exemplo prático: apesar do trânsito absurdamente terrível, é comum ver por aqui ciclistas pedalando por entre os carros, sem qualquer ciclovia construída, subindo ladeiras e enfrentando ônibus em ruas estreitas. Nem no Rio de Janeiro, que é uma cidade cheia de ciclovias e muito agradável para se andar de bicicleta, as pessoas usam tanto esse meio para se transportar; usam mais para esportes/lazer. E aqui os ciclistas se organizam, fazem passeatas (como todos os grupos), chamam atenção para si e reivindicam seu espaço numa metrópole que já lotou há tempos.

 

Para não me alongar, eu creio que a cidade tem seu ritmo acelerado, mas como você se torna parte disso depende do óculos que você coloca para enxergá-la. E quem se sente oprimido e apressado acaba se voltando muito para si mesmo, “correndo atrás do seu”. Creio que o carioca se ache muito malandro, mas nesse aspecto o paulistano deve ser muito mais, pois sabe se dar muito melhor no que se propõe. E nisso tudo acaba sobrando muito pouco tempo para se gastar com o outro. Não vejo as pessoas discutindo muito umas com as outras por aqui; o ato implica não só em perda de tempo como de energia. Então, se não existe amor em SP, talvez tenha a vantagem de também não existir o ódio, por pura economia.

 

Costumo dizer que o Paris (nunca fui) deve ser a cidade mais bonita do mundo POR CAUSA do homem e o Rio de Janeiro (nasci lá) a cidade mais bonito do mundo APESAR do homem. Aqui em SP, muito como em Paris, as pessoas tem que fazer a cidade pelo simples motivo de que ela não veio pronta. Por isso é tão difícil que se torne bonita e na maior parte do tempo não é mesmo. Nesse processo de construção é muito possível que as pessoas tenham se tornado egoístas para não se machucarem e não se decepcionarem tanto com as outras; afinal o Mar-mãe não se encontra nem um pouco por perto para consolar. Mas ainda prefiro a tristeza opcional à felicidade compulsória.

Sopro

abril 16, 2012

Quando eu nasci eu ganhei um sopro de vida. Ou deveria ter ganho. Uma vontade que existia antes de mim e passou a ser o que eu seria. Parte de quem fez; previsões detalhadas ou não. Mas acho que esse sopro nunca veio. Por isso, em mim reside um vazio que faz meus pensamentos ecoarem. Bom seria ter um roteiro pronto, uma história bonita e fácil. Mas tudo que me deram foi a chance de ser tudo que eu quisesse, sem eu nunca querer. Se eu eu tivesse a vontade. Se antes esse sopro me acalmasse.

Domingo no parque

abril 9, 2012

Hoje fui conferir a apresentação da turnê “Recanto” de Gal Costa no Parque da Juventude, onde funcionava a penitenciária Carandiru em São Paulo. Para minha surpresa, poucas pessoas se juntavam perto das árvores no ambiente bastante agradável do parque, buscando se protegerem do sol quente das 11 da manhã. Pessoas em sua maioria jovens, algumas famílias e fãs esperavam sentados na grama quando o show começou com apenas 10 minutos de atraso, às 11:40. Gal entrou cantando “Da maior importância”, muito serena, ainda esperando o público se aproximar mais do palco, resistindo ao forte calor. Logo em seguida cantou “Tudo dói”, do novo trabalho eletrônico, e continuou alternando grandes sucessos como “Baby” com os carros-chefes do novo álbum; entre eles “Neguinho” numa versão pesada e cantada com empolgação por Gracinha.
Entre os destaques ficaram “Vapor barato”, que recebeu uma roupagem com os ares de “Recanto”, “Um dia de domingo”, que interpretou brincando de imitar Tim Maia, com quem gravou a música, e Miami Maculelê, o funk que é a faixa mais inusitada do trabalho novo trabalho.
Gal estava em ótima disposição, sua voz continua com uma força incrível e surpreendente e ela terminou o show com “Meu bem, meu mal”, que originalmente não era prevista no set.
Destaque também para o público, que cantou junto, se emocionou diversas vezes e apreciou o show inteiro sem se amontoar e sem nenhum tipo de empurra-empurra típico dos eventos gratuitos. Não podia esperar nada melhor para uma manhã de sol de domingo.

Arpoador

janeiro 6, 2012

Ontem, depois de muito tempo, foi um dos primeiros dias que o verão carioca realmente bombou e eu fui averiguar isso pessoalmente indo à praia na rua Farme de Amoedo. Lá pras tantas quando eu resolvi ir embora, ligo para um rapaz que mora no subúrbio e disse que estaria ali pelo Arpoador para ver se ainda estava por lá. Nos conhecemos pela internet há anos, mas nunca nos vimos tamanha é a disparidade das realidades das zonas no Rio. Fui andando até o posto 7 onde ele estava com uma amiga, que já havia demonstrado resistência em deixá-lo ir me encontrar na “praia gay” e preferia continuar ali onde estavam observando os gringos e sarados que não paravam de transitar. Entramos um pouco no assunto e ela diz que “não tem nada contra”, mas demonstra claramente que não se sente a vontade ao ver dois homens ou duas mulheres juntas. Fico um pouco surpreso, não só por ela ser muito amiga desse garoto, que é gay, mas também por ela ser mulata, obesa, ter o rosto repleto de acne e ser bastante feia de rosto, além de obviamente pobre. Em outras palavras, a única coisa que ela não é, é lésbica. Mas há muito eu já notei que não é por fazer parte de uma minoria que você se identifica com a exclusão de outra, existindo talvez até uma escala de preconceito na qual as pessoas se julgam “menos piores” que as outras. Na primeira investida que dei de um beijo no garoto, ele ficou visivelmente constrangido e disse que “aqui não” e que “tinha crianças por perto”. Eu falei que não estávamos fazendo nada demais e quem fica constrangido com essas coisas são os adultos, não as crianças. Quando finalmente ele se sentiu mais a vontade para darmos um rápido selinho, sua amiga corpulenta, que estava em pé na nossa frente, começa a expressar seu constrangimento olhando para os lados boquiaberta e se movimentando como se estivesse com vergonha, o que obviamente chamou a atenção das pessoas. Segundo ela, estava “todo mundo olhando”. Então aproveitei que o garoto estava no mar para dizer para sua amiga que o quem estava chamando a atenção das pessoas, na verdade, era ela, e que se ela agisse de maneira natural estaria contribuindo para que todos vissem nosso ato como o que realmente era, uma coisa normal. Afinal, não estávamos tirando a roupa, nem nos agarrando, mas sim dando um beijinho muito mais inocente do que se costuma ver o tempo todo nas praias da região. Ela não soube muito o que responder, mas senti que o recado estava dado. Continuamos caminhando pelo calçadão onde tanto o garoto quando ela ficavam sonhando com galãs de músculos perfeitos e rostos cinematográficos que passavam a toda hora.