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A orkutização do mundo ou a democratização da burrice

setembro 6, 2013

Sabemos que, com a Internet, veio o excesso de informação e hoje só é possível usá-la tendo uma boa capacidade de filtrar o chamado “ruído”, ou conteúdo completamente desnecessário que parasita o entorno de qualquer canto da rede. Fora as propagandas que atingiram um nível de invasividade nunca antes imaginado até para a TV, que sempre fez uso excessivo da mesma. Não vou entrar no mérito da publicidade, pois esse é um assunto que merece atenção individual. O que tem me chamado a atenção é a dificuldade de se encontrar algo de relevante, positivo, pessoalmente significativo no meio de um oceano de lixo que a Internet, verdadeira “grande mídia” da atualidade, se tornou e se torna cada vez mais.

Estamos todos online. Pode se argumentar que cerca de metade da população do Brasil ainda não tem acesso a rede, mas cerca de 30% ainda nem tem aparelho celular. A questão é que chegamos num ponto onde todo mundo que você conhece tem acesso a Internet, o que era longe de ser uma realidade nos idos dos anos 90. Num primeiro momento os blogs e, em seguida, as redes sociais trouxeram uma noção de que todo mundo deveria expôr suas opiniões, afinal isso era um direito na grande democracia que a Internet trazia e simbolizava. A palavra “ferramenta” foi muito utilizada. Na Internet existem ferramentas para se fazer e se chegar basicamente onde quiser e todos que chegaram nesse “clube” acharam que tinha algo a acrescentar e colocaram mãos à obra. O resultado disso foi a vinda à tona de uma realidade aparentemente paralela, pobre, cafona, risível e, em última instância, apenas feia. Pessoas passaram a narrar suas vidas através de mensagens de autores duvidosos e fotos ultra-expositivas carregando um sentimento de que “compartilhar” com o mundo não era mais uma opção, mas uma obrigação. Pessoalmente acredito que o exemplo do ápice do que estou falando é a foto na rede social da menina abraçando seu cachorro morto com os dizeres: estou muito triste porque meu cachorro morreu. E a tragédia vira instantaneamente comédia.

A Internet deixou as pessoas mais burras? Muitos acreditam que sim, mas eu, pessoalmente, duvido muito e tenho uma teoria que explica o que vem acontecendo desde os tempos de Orkut, no Brasil. Tive a oportunidade de passar um tempo nos Estados Unidos. Cheguei lá com a seguinte imagem pré-concebida: os americanos são burros. Alguns deles chegaram a me confirmar a imagem que levei de casa, me explicando com todas as letras: “nós fazemos tudo para pular a parte do pensar”. Olhando com mais cuidado, porém, eu pude perceber que os americanos eram muito burros (alguns) e muito inteligentes (outros). A nossa percepção da dita burrice americana começa pois a escola típica americana obriga os estudantes a fazer matérias que “puxam” muito menos que suas análogas no Brasil, além de lá não existir o temido vestibular, que uniformiza até o ensino médio, no Brasil, o ensino de quem quer estudar artes cênicas e quem quer ser físico nuclear. Lá as matérias mais puxadas, que eles chamam de “A.P.” e já tem uma certa carga do que é esperado na faculdade, são inteiramente opcionais, justamente para que quem tem o interesse possa desenvolver seus conhecimentos. Quem não quer tem toda a condição de continuar na mediocridade e se formar do mesmo jeito. Num ensino realmente democrático, ser inteligente ou burro também são opções. Mas por que estou dizendo tudo isso? Porque quero explicar como os americanos levaram há muito tempo a fama de burros para o exterior e só agora começamos a nos tocar que não somos tão superiores assim.

Numa sociedade como a dos Estados Unidos, onde a pobreza, apesar de grande no ponto de vista deles, é ínfima na nossa perspectiva, a classe média teve durante todo o século passado acesso a informação, cultura (mesmo que enlatada) e um leque de opções para produzir e comunicar a realidade dessa sociedade. Se destacou para o mundo a imagem do americano que, pragmático a acomodado, nos parece tosco, intelectualmente inferior ao brasileiro. Pelo menos essa era a visão que uma “elite” cultural no Brasil tinha do nosso país como um todo, por considerar que o país era apenas a pequena parcela que tinha acesso não apenas à cultura, mas aos meios de produção de comunicação, que é o assunto que estou abordando. A Internet quebrou essa lógica. Mostrou a cara do Brasil e ela era mais tosca e desdentada que a do americano “white trash”. Pode parecer que estou dizendo que a chegada de pessoas de baixa renda à rede é que acarretou todos os problemas de poluição, mas é muito mais que isso. A Internet deu meios para quem é pobre, mas também para quem é rico ou classe média e antes não tinha como expressar suas ideias, muitas vezes fundamentalistas, preconceituosas, de mau gosto ou simplesmente bizarras como uma foto de um cachorro morto. A burrice foi democratizada, sem ver gênero, cor ou classe social. Apesar de, sabendo pesquisar muito bem, a rede ter trazido avanços incríveis em incontáveis meios, o que sobressai é uma tsunami de lixo radioativo da pior qualidade que retrata um lado antes oculto de nossa sociedade, nada estrangeiro e muito desagradável. O Orkut sempre esteve aqui.

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