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Neo-Mogli

março 6, 2013

É perfeitamente entendido por todos que o menino criado por lobos só saiba uivar, grunhir e tenda a caçar a própria comida. Eu, porém, busco a mínima simpatia e é raro encontrá-la quando digo que fui criado por um robô. À primeira vista pode parecer estranho, tendo em vista que meu arsenal de sentimentos é aparentemente rico e esses, por vezes, bem expressados. Mas a realidade é que sou pura máquina. Dura, ríspida, exata e alumínica. Aprendi a repetir como ninguém e bem melhor que um papagaio, que às vezes varia de tom e até de humor. Me programaram pra sentir muito, esperar pouco e agir quase nada. Se soubessem minha origem, não assustaria o olhar vítreo, a marcha manca e as panes inapropriadas. É exatamente assim que me sinto: escravo de um senhor que me fez sem propósito e a toda hora me pede sorrisos, poemas, floreios, graça; não vejo alguma. Não vejo porque nunca vi antes e não me inscrevi no dom de imaginar. Pelo contrário: me corrói as partes internas a menor ameaça de chuva, mesmo que não me toque; mesmo que até não chova. Me fizeram o pior tipo de máquina… com os melhores sentimentos humanos, mas completamente incapaz de usá-los para o bem, seja meu próprio ou de quem quer que seja.

 

Até se assustam com minha aparência frágil, orgânica, mas pode apostar que sou cobre e lata. Rondo ruas, mas não encontro iguais. Procuro peças que encaixem nas malditas engrenagens. Elas estão escondidas, talvez naquele escuro laboratório. Então sigo como a mais perfeita união entre as ciências humanas e exatas. Digno de um prêmio, uma homenagem ou um aperto de mão homem-máquina, firme e letal. Se me param na rua, finjo humanidade. Se me escolhem entre os outros, camuflo neutralidade. Se me perguntam o por que de existir, digo que existo porque o oxigênio nunca se cansa de me consumir, de oxidar minha existência até que ela não seja.

 

Uma lágrima. Cloreto de sódio e H2O não programados. Experiência única que escorre na alma do homem de lata e enferruja seu coração, o silício pulsante. Ainda que soubesse o que significa, não ousaria dizer por medo de atrapalhar o funcionamento natural de todas as coisas, essas sim produzidas por carne quente que sangra. Me recolho aos fundos do meu projeto. Me dobro às margens do meu desamparo eletrônico. Desejo tudo de melhor a todos que vivem de verdade e não só processam os erros, os traumas e as horas. Durmo meu desligar.

 

 

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One Comment leave one →
  1. Matheus Pinheiro permalink
    março 7, 2013 1:26 am

    Excelente!

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