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A paixão do geneticista

fevereiro 7, 2013

Estava muito relutante em escrever qualquer coisa sobre o assunto, principalmente já estando aos 59 minutos do terceiro tempo. O fato é que assistir à entrevista do Pastor Silas Malafaia no último domingo deixou tanto eu quanto vários amigos em estado de choque e a repercussão ainda não cessou, dias depois. Depois da polêmica da entrevista, tanto pelas falas do pastor quanto pela reação incomum da entrevistadora, surgiu o vídeo do geneticista, representando um certo “time adversário”, o da razão. Agora estamos num terceiro momento, em que até quem não concorda com o pastor também tem suas ressalvas em relação ao discurso do geneticista, como neste artigo que li hoje no site oene.

A minha ressalva sobre escrever sobre o assunto não vem tanto por todo mundo já ter falado tanta coisa, mas por eu achar o tema surreal: o simples fato de estar aberto o tópico de gays terem ou não os mesmos direitos que não-gays. Apesar dessa constatação chocante, também é fato que: “Todo mundo quer saber com quem você se deita.” (VELOSO, Caetano in A Luz de Tieta). Por isso, em pleno 2013, estamos aqui discutindo se as pessoas já “nascem gays”, “viram gays”, “escolhem ser gays”, entre outras opções. Creio que daqui a 50 anos vamos rir muito de pessoas já terem se preocupado com isso, mas no presente momento e em todo mundo, esta é uma questão relevante para as pessoas conseguirem formar uma opinião sobre o casamento e adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Vou expressar minha opinião sobre esses temas, mesmo achando que esse tipo de coisa seria melhor se já se desse por natural e não precisasse ser discutida. E usei “casal” de propósito, pois também considero vencida a noção de casal como sendo formado por um homem e uma mulher. Dizer que dois homens ou duas mulheres que se casam são “um par”, “uma dupla”, ou qualquer coisa parecida, só serve para causar estranhamento num assunto que já carrega muito mais estranhamento do que deveria.

Se as pessoas “nascem gays” ou não, não é algo que me fascine. Mas me fascina o fato das pessoas se fascinarem com essa questão. Eu sempre penso o seguinte: se a sexualidade é algo que o ser humano começa a expressar a partir da adolescência e da idade adulta, como ele poderia já nascer fadado a expressar determinada sexualidade? Será que alguém poderia, dentro do útero, já estar disposto a gostar de homem ou de mulher, sendo que ele nunca viu nem sabe o que é um homem ou uma mulher? Ou pensando numa situação esdruxula, do tipo Lagoa Azul: alguém que foi criado numa ilha deserta onde só tem contato com uma pessoa, poderia ser homo ou heterossexual “desde criancinha”, sendo que só soube da existência de outras pessoas do sexo oposto?

Eu acho que aí entra a questão da criação, do ambiente, do “aprendido”, mesmo que inconscientemente. Somos homens e mulheres que gostam de homens e/ou mulheres porque em algum momento na nossa infância até o início da puberdade nos situamos num mundo repleto de pessoas com diferentes sexualidades e gostos específicos em cada uma dessas sexualidades. Caberia falar rapidamente da teoria freudiana, sem querer explicá-la em detalhes, o que demoraria muito e só serviria pra confundir mais. O que o famoso “complexo de Édipo” dita é que em algum momento na tenra infância o menino se percebe (inclusive fisicamente, mas não somente) parecido com seu pai e, como ele, se apaixonaria por mulheres. Já a menina se perceberia semelhante com sua mãe. A questão física contribuiria para explicar por que existem mais héteros que gays no mundo. Ela é importante, porém não fundamental; tanto que muitos homens se identificam com suas mães e acabam gostando de outros homens e muitas mulheres se identificam com seus pais. Isso levanta a questão: crianças filhas de casais gays se tornariam gays por influência? Na verdade, não. Os pais serão influências importantes nas vidas dos filhos, porém não as únicas. Basta pensar em filhos (de ambos os sexos) que são criados por mães solteiras ou por pais solteiros. Ninguém questiona o que acontecerá com a sexualidade dessas crianças mesmo que o pai ou a mãe ausente da equação esteja morto. Isso acontece por que a ideia de “masculino” e “feminino” paira no ar (nos nossos inconscientes), mesmo que só tenhamos exemplos mais explícitos de um dos dois em casa. E a verdade é que dentro de cada um de nós existe masculino e feminino e a criança filha de um casal gay poderá eleger com naturalidade algum dos pais que ela sente ser mais “mãe” e outro que ela sente ser mais “pai”. Essa figura complementar pode vir também de fora do casal: através de uma avó, tio, madrinha, padrinho, babá, ou qualquer outra pessoa que fará parte da criação dela.

Essa é a parte que eu acho que nós poderíamos estar nos focando na discussão, ao invés de pensar se a pessoa já “vem gay de fábrica”, se aprende isso com alguém ou se ela tem condição de escolher o que gosta. O que ninguém falou até agora é: como estão as crianças criadas por casais gays? O pastor afirmou que essas crianças não têm condição de serem 100% felizes, normais ou o que quer que seja, que uma criança criada por um casal formado por um homem e uma mulher. É óbvio que ele está num plano completamente ideal, utópico, pois o que mais vemos por ai são famílias (de casais héteros) desestruturadas, com pais e filhos que se odeiam. Mas por que não perguntar para as próprias crianças, que, em países onde esse tipo de adoção acontece há décadas, já podem ser até adultos, se elas se sentem mal por terem sidos criadas por casais gays? Compará-las com outras crianças de sua geração, de sua escola. Eu uma vez li que, nos EUA, apesar de questões como o casamento e adoção serem tão polêmicas e complicadas como aqui, já existiam mais de 1 milhão de crianças que são criadas por pais gays. Eu acho que é um número mais do que suficiente para se fazer uma enquete e colocarmos de uma vez por toda de lado a teoria de que essas pessoas são de alguma forma mais infelizes ou incapazes do que as outras.

O que me parece é que organizações religiosas como a do Pastor querem é que as pessoas se sintam muito mal com o fato de serem gays para poderem procurar suas  igrejas a fim de serem “curadas”, se tornando suas fiéis e colaboradoras financeiras. Eles precisam de um inimigo para declararem guerra e legitimarem sua existência e, infelizmente, os homossexuais são um alvo escolhido por eles no momento que vivemos.

Se existe algo que nasce conosco que nos empurra mais pra uma direção de casinha sexual do que pra outra, é perfeitamente possível. Que a forma como somos criados e nos colocamos no mundo é um fator decisivo para a definição precisa dessa inclinação, é muito provável e observável. O que querem discutir levantando essas questões é se a igreja tem ou não o direito de ver pessoas como doentes simplesmente a partir de suas práticas sexuais. E pior: se essas mesmas igrejas devem fazer pressão para que leis que tragam direito iguais aos dos não-gays para os gays não sejam aprovadas. Para mim, isso tudo soa obscuro demais. Quanto mais eu leio sobre e me sensibilizo ao comportamento humano, mais eu percebo como somos todos tão parecidos e que o problema surge, justamente, quando alguém começa a achar o outro diferente demais.

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