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Os Beatles e a perfeição

setembro 3, 2012

Tenho lido cada vez mais textos e conselhos do tipo: se você está errando, isso significa que você está fazendo alguma coisa. Acho que serve para a maior parte das coisas da vida, mas eu estou falando especificamente sobre produzir alguma coisa; um texto, um desenho, uma música. A razão pela qual venho buscando esse tipo de motivação é o de me encontrar terrivelmente engessado neste quesito, tendo deixado de lado a maioria dos meus pequenos projetos, entre eles este blog. Passei grande parte da minha vida ouvindo coisas do tipo “como você escreve bem!” ou “como você desenha bem!”, entre outras coisas. Esses elogios, ao contrário de me incentivar a produzir mais, pelo contrário, justamente me fizeram ter cada vez mais medo de errar. Medo este que é o principal fator gerador de nada.

 

Ainda pensando sobre isso (a criação), eu estava agora percebendo o por que de gostarmos de algum artista em especial. Claro que precisamos gostar de sua obra, sua produção, mas invariavelmente levamos também no pacote suas ideias (que nem sempre tem a ver com o que ele produz), seus valores, seu modo de ser em geral e até sua história e o que ele representa. E como a maioria das pessoas sabe, nenhum artista me toca mais do que os Beatles e eu consegui entender perfeitamente quais são esses fatores extra-musicais que fazem com que eu me encante com tudo que diz respeito a eles. Os Beatles são a exceção da exceção no que diz respeito a história da produção musical e até de outras formas de expressão artística, simplesmente porque foram “perfeitos”, por mais que isso possa soar apenas uma opinião embaçada de um fã. Mas o que eu quero dizer com “perfeitos” é que todos os 13 álbuns que eles lançaram durante sua carreira hoje são considerados clássicos, classificação para a qual a revista Rolling Stone dá cinco estrelas. Mesmo com Beatles For Sale não sendo nenhum Abbey Road, no contexto musical ele acabou se tornando também um clássico, tornando a discografia dos Beatles um caso totalmente incomum. Todas as outras bandas que eu admiro muito como Queen e Led Zeppelin tiveram seus momentos fracos, seus álbuns que só quem é muito fã acaba escutando. Esse é um “problema” que os Beatles jamais tiveram que enfrentar nos sete curtos anos que sua carreira de estúdio durou. Está aí outro número impressionante para se considerar: 13 discos em 7 anos.

 

A questão é que os Beatles são a maior, mais importante e melhor banda de todos os tempos. Maior porque foi a que mais fez sucesso e vendeu discos. Mais importante porque foi a que mais influenciou outros artistas. E melhor na minha humilde opinião. Mas como eu já disse, eles foram a exceção da exceção e, apesar de terem uma história inspiradora, não podem servir de objetivo de comparação para ninguém que almeje produzir nada. Os fatores que os levaram a serem o que foram são muitos, entre eles um timing que jamais existirá de novo. Nesse ponto é que eu como fã me agarro a esta perfeição que mais me assusta do que me inspira e fico pensando no quanto eu sou pequeno em relação aos meus ídolos; insignificante até. Da mesma forma que um adolescente revoltado escuta bandas que expressem essa revolta e fãs de divas se sintam mais femininos quando escutam suas musas, creio que me apeguei aos Beatles quando fui percebendo o quão perfeita era sua história, do começo ao fim rica, interessante, criativa e para usar uma palavra que frequentemente é atribuída a obra deles, mágica. Só que a vida não é tão mágica assim e se torna cada vez mais necessário para mim que eu me entregue aos erros para que possa acertar em algum momento. Se eu não tenho o talento de Paul McCartney, isso não significa que eu não tenha talento algum, ou todas as pessoas que me disseram que eu tenho (incluindo minha intuição) estariam erradas. A verdade é que nem Jesus agradou a todos; nem os Beatles agradaram! Muito mais difícil do que aprender uma técnica, aperfeiçoá-la, criar um estilo e se expressar é dar a cara a tapa. Esse talvez seja o desafio maior do artista.

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