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Sobre o sentimento que talvez exista

maio 1, 2012

Desde que pus meus pés no túmulo do samba, os habitantes da minha terra (o estado da Guanabara) me perguntam: existe ou não existe amor nessa tal São Paulo? Creio que com pouco mais de um mês morando aqui eu já possa fazer um esboço de resposta, que não poderia ser mais inconclusiva: existe e não existe, como em qualquer lugar. Mas será que aqui existe menos ou de maneira menos intensa? Senão, qual o motivo da ênfase geográfica que o Criolo dá?

 

 Os paulistas definitivamente estão com mais pressa que os cariocas. Entre outros clichês, são especialistas em falar sobre trabalho o tempo inteiro que não estão no trabalho, como se isso os relaxasse. Eu escuto, às vezes até atento, mas prometendo a mim mesmo não me deixar levar por essa mão bruta que empurra os paulistanos (ou quem aqui habita) e querer sempre mais, fazer sempre mais, mais rápido. Descobri que, apesar dessa fama da cidade ser verdadeira, muitas pessoas vem para cá justamente para ditarem o próprio passo de suas vidas, sem serem levadas pelo modo de operação do local. O Rio de Janeiro ou Salvador são cidades que funcionam a um passo que pode irritar os mais ansiosos. Por mais que possuam uma grande beleza natural, existe muita gente que não quer ser carregado no colo pela Mãe Natureza, que quer fazer mais do que assistir o que já foi feito. Acho que é por isso que São Paulo ou outras cidades como Nova York foram se tornando um ponto de encontro de pessoas de todos os cantos, das mais diversas, e assim vão criando o seu próprio mundo, descobrindo seus “iguais”. Para não parecer apenas teórico, vou dar um exemplo prático: apesar do trânsito absurdamente terrível, é comum ver por aqui ciclistas pedalando por entre os carros, sem qualquer ciclovia construída, subindo ladeiras e enfrentando ônibus em ruas estreitas. Nem no Rio de Janeiro, que é uma cidade cheia de ciclovias e muito agradável para se andar de bicicleta, as pessoas usam tanto esse meio para se transportar; usam mais para esportes/lazer. E aqui os ciclistas se organizam, fazem passeatas (como todos os grupos), chamam atenção para si e reivindicam seu espaço numa metrópole que já lotou há tempos.

 

Para não me alongar, eu creio que a cidade tem seu ritmo acelerado, mas como você se torna parte disso depende do óculos que você coloca para enxergá-la. E quem se sente oprimido e apressado acaba se voltando muito para si mesmo, “correndo atrás do seu”. Creio que o carioca se ache muito malandro, mas nesse aspecto o paulistano deve ser muito mais, pois sabe se dar muito melhor no que se propõe. E nisso tudo acaba sobrando muito pouco tempo para se gastar com o outro. Não vejo as pessoas discutindo muito umas com as outras por aqui; o ato implica não só em perda de tempo como de energia. Então, se não existe amor em SP, talvez tenha a vantagem de também não existir o ódio, por pura economia.

 

Costumo dizer que o Paris (nunca fui) deve ser a cidade mais bonita do mundo POR CAUSA do homem e o Rio de Janeiro (nasci lá) a cidade mais bonito do mundo APESAR do homem. Aqui em SP, muito como em Paris, as pessoas tem que fazer a cidade pelo simples motivo de que ela não veio pronta. Por isso é tão difícil que se torne bonita e na maior parte do tempo não é mesmo. Nesse processo de construção é muito possível que as pessoas tenham se tornado egoístas para não se machucarem e não se decepcionarem tanto com as outras; afinal o Mar-mãe não se encontra nem um pouco por perto para consolar. Mas ainda prefiro a tristeza opcional à felicidade compulsória.

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  1. Matheus Pinheiro permalink
    maio 3, 2012 3:26 am

    Boa.

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