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Afinal, o que é homofobia?

setembro 11, 2014

No centro dos debates atuais, a homofobia se tornou uma questão chave e ao mesmo tempo uma incógnita na luta pelos direitos civis na atualidade. Contrários a uma lei específica dizem que isso traria privilégios aos homossexuais, quando não afirmam que a homofobia simplesmente não existe. Será que os ativistas exageram e chamam qualquer um que não ama os gays (e inclusive tem muitos amigos) de homofóbico? Seria a homofobia uma invenção de um grupo que quer se tornar superior ao resto da população e de quebra acabar com a família?

A homofobia é o termo que hoje é genericamente usado para classificar o preconceito contra homossexuais, análogo aos termos “racismo” e “machismo”. Não é a melhor escolha de palavra, mas é a única que temos por enquanto e por isso vem sendo desconstruída por quem quer adiar o enfrentamento de problemas graves. O primeiro argumento que usam é que “fobia” quer dizer medo e que eles não têm medo de homossexuais. Porém, da mesma forma que as pessoas que odeiam os estrangeiros raramente tem medo deles, a xenofobia existe, talvez desde que o mundo seja mundo. A fobia, antes de ser interpretada como medo, deveria ser lida como “aversão”. O segundo argumento é que uma pessoa não é homofóbica pois é totalmente contra que se agrida fisicamente ou mate um gay. Sabemos também que nem todo machista agride fisicamente uma mulher, mas a perpetuação de uma cultura machista leva muitos a agredirem, estuprarem e assassinarem mulheres. Dessa forma, não existem o homofóbico, o machista e o racista “bonzinhos”, que não causam mal a ninguém, pois seu comportamento contribui para que outros se sintam no direito de agir com agressão física e verbal contra essas pessoas.

E o homofóbico? Será que existe? Você nunca vai ouvir uma pessoa falar “eu sou homofóbico”. Da mesma forma que você nunca vai ouvir um político corrupto falar “eu sou corrupto”. Mesmo que este último admita num tribunal que cometeu crime de corrupção, ele não vai proferir a frase “eu sou corrupto”. Simplesmente porque é um xingamento, algo que as pessoas não querem atribuído a elas. Hoje, “homofóbico” se tornou um xingamento, algo que ninguém quer ser. Então as pessoas mais homofóbicas do planeta vão dizer que não são homofóbicas, simplesmente porque o termo não lhes cai bem. Seria como alguém dizer “eu sou um canalha”, ou um aproveitador, ou um imbecil. É mais agradável não se pensar um homofóbico.

Como definir, então, a homofobia? Assim como no racismo se pensa que existe alguma outra diferença entre um negro e um branco além da cor de pele, e no machismo que existe alguma diferença entre uma mulher e um homem além do gênero, na homofobia se acredita que existe alguma diferença entre um homossexual e um hétero, além da sexualidade. Alguma diferença pra pior, invariavelmente. A luta pelos direitos civis no século passado, apesar de não ter acabado nem com a existência do racismo e do machismo, como sabemos bem, elevou os grupos representados a uma categoria que oficialmente não pode ser denegrida em público. Em outras épocas foi comum negar às mulheres e aos negros o direito de votar, o de ser livre, entre muitos outros. Hoje em dia isso soa absurdo, mas vivemos numa época em que gays, na maior parte do mundo não podem fazer qualquer tipo de união civil ou casamento e também não podem doar sangue. A homofobia, ou seja, classificar os gays como seres diferentes, de uma categoria inferior, sujos, abomináveis, que deveriam sentir vergonha de ser quem são, se tornou o último preconceito ainda largamente socialmente aceito.

É por isso que vemos a luta constante de pastores para que os homossexuais sejam “demonizados”. São um dos últimos inimigos que sobraram para continuar dando sentido a sua “cruzada contra o mal”, assim como fazem os super heróis e os EUA, que sempre precisam de algum lugar do mundo para bombardear. Não sobrevivem sem um inimigo para antagonizar. Nesse sentido, até que estamos evoluindo bem. Há 50 anos atrás, esses pastores não sentiriam receio algum de declarar abertamente que os homossexuais deveriam ser mortos. Isso é impensável nos dias de hoje. E cada vez mais, visto que a profusão de câmeras e vídeos na internet faz com que tudo de mais bizarro que é dito em templos e igrejas se torne instantaneamente público. Eles é que aos poucos vão tomando vergonha na cara.

A luta contra o preconceito infelizmente passa por esses conceitos mais técnicos do que práticos ou mesmo teóricos. O preconceituoso não quer ser julgado como tal, ao mesmo tempo que não quer que nenhuma lei que proíba ele de continuar exercendo seu preconceito seja aprovada. Enquanto isso não acontece, dois homens e duas mulheres que estão juntos não se amam, apenas “exibem um comportamento homossexual” (inaceitável e que demandaria arrependimento e provável afiliação a uma congregação religiosa). E se você é um desses casais e tem um filho, eles querem dizer que vocês não são uma família. É, no mínimo, cruel. No máximo, desumano.

A orkutização do mundo ou a democratização da burrice

setembro 6, 2013

Sabemos que, com a Internet, veio o excesso de informação e hoje só é possível usá-la tendo uma boa capacidade de filtrar o chamado “ruído”, ou conteúdo completamente desnecessário que parasita o entorno de qualquer canto da rede. Fora as propagandas que atingiram um nível de invasividade nunca antes imaginado até para a TV, que sempre fez uso excessivo da mesma. Não vou entrar no mérito da publicidade, pois esse é um assunto que merece atenção individual. O que tem me chamado a atenção é a dificuldade de se encontrar algo de relevante, positivo, pessoalmente significativo no meio de um oceano de lixo que a Internet, verdadeira “grande mídia” da atualidade, se tornou e se torna cada vez mais.

Estamos todos online. Pode se argumentar que cerca de metade da população do Brasil ainda não tem acesso a rede, mas cerca de 30% ainda nem tem aparelho celular. A questão é que chegamos num ponto onde todo mundo que você conhece tem acesso a Internet, o que era longe de ser uma realidade nos idos dos anos 90. Num primeiro momento os blogs e, em seguida, as redes sociais trouxeram uma noção de que todo mundo deveria expôr suas opiniões, afinal isso era um direito na grande democracia que a Internet trazia e simbolizava. A palavra “ferramenta” foi muito utilizada. Na Internet existem ferramentas para se fazer e se chegar basicamente onde quiser e todos que chegaram nesse “clube” acharam que tinha algo a acrescentar e colocaram mãos à obra. O resultado disso foi a vinda à tona de uma realidade aparentemente paralela, pobre, cafona, risível e, em última instância, apenas feia. Pessoas passaram a narrar suas vidas através de mensagens de autores duvidosos e fotos ultra-expositivas carregando um sentimento de que “compartilhar” com o mundo não era mais uma opção, mas uma obrigação. Pessoalmente acredito que o exemplo do ápice do que estou falando é a foto na rede social da menina abraçando seu cachorro morto com os dizeres: estou muito triste porque meu cachorro morreu. E a tragédia vira instantaneamente comédia.

A Internet deixou as pessoas mais burras? Muitos acreditam que sim, mas eu, pessoalmente, duvido muito e tenho uma teoria que explica o que vem acontecendo desde os tempos de Orkut, no Brasil. Tive a oportunidade de passar um tempo nos Estados Unidos. Cheguei lá com a seguinte imagem pré-concebida: os americanos são burros. Alguns deles chegaram a me confirmar a imagem que levei de casa, me explicando com todas as letras: “nós fazemos tudo para pular a parte do pensar”. Olhando com mais cuidado, porém, eu pude perceber que os americanos eram muito burros (alguns) e muito inteligentes (outros). A nossa percepção da dita burrice americana começa pois a escola típica americana obriga os estudantes a fazer matérias que “puxam” muito menos que suas análogas no Brasil, além de lá não existir o temido vestibular, que uniformiza até o ensino médio, no Brasil, o ensino de quem quer estudar artes cênicas e quem quer ser físico nuclear. Lá as matérias mais puxadas, que eles chamam de “A.P.” e já tem uma certa carga do que é esperado na faculdade, são inteiramente opcionais, justamente para que quem tem o interesse possa desenvolver seus conhecimentos. Quem não quer tem toda a condição de continuar na mediocridade e se formar do mesmo jeito. Num ensino realmente democrático, ser inteligente ou burro também são opções. Mas por que estou dizendo tudo isso? Porque quero explicar como os americanos levaram há muito tempo a fama de burros para o exterior e só agora começamos a nos tocar que não somos tão superiores assim.

Numa sociedade como a dos Estados Unidos, onde a pobreza, apesar de grande no ponto de vista deles, é ínfima na nossa perspectiva, a classe média teve durante todo o século passado acesso a informação, cultura (mesmo que enlatada) e um leque de opções para produzir e comunicar a realidade dessa sociedade. Se destacou para o mundo a imagem do americano que, pragmático a acomodado, nos parece tosco, intelectualmente inferior ao brasileiro. Pelo menos essa era a visão que uma “elite” cultural no Brasil tinha do nosso país como um todo, por considerar que o país era apenas a pequena parcela que tinha acesso não apenas à cultura, mas aos meios de produção de comunicação, que é o assunto que estou abordando. A Internet quebrou essa lógica. Mostrou a cara do Brasil e ela era mais tosca e desdentada que a do americano “white trash”. Pode parecer que estou dizendo que a chegada de pessoas de baixa renda à rede é que acarretou todos os problemas de poluição, mas é muito mais que isso. A Internet deu meios para quem é pobre, mas também para quem é rico ou classe média e antes não tinha como expressar suas ideias, muitas vezes fundamentalistas, preconceituosas, de mau gosto ou simplesmente bizarras como uma foto de um cachorro morto. A burrice foi democratizada, sem ver gênero, cor ou classe social. Apesar de, sabendo pesquisar muito bem, a rede ter trazido avanços incríveis em incontáveis meios, o que sobressai é uma tsunami de lixo radioativo da pior qualidade que retrata um lado antes oculto de nossa sociedade, nada estrangeiro e muito desagradável. O Orkut sempre esteve aqui.

Um hospício chamado Twitter

maio 1, 2013

Nos últimos dias, o Twitter acompanhou o desenrolar de uma das histórias mais bizarras já descritas pelos 140 caracteres. A tentativa de suicídio de uma moça, por motivos que desconheço, causou primeiro a comoção e, em seguida, uma onda de revolta ao suspeitarem que se tratava de uma encenação. Chamou atenção também a tentativa desesperada da vítima de si mesma, mesmo estando em um estado delicado, de provar para todos que se tratava de uma tentativa de se matar real e que ela estava internada, com direito a atestado médico e tudo mais.

Que a internet “não perdoa”, todo mundo já sabe. A vida online tem a tendência de trazer à tona o pior nas pessoas com muito mais frequência que o melhor. O distanciamento físico e um certo anonimato estão nas origens disso. Enquanto o Facebook se consagrou como um painel de felicidade, onde as pessoas expõem para o mundo com fotos e montagens como suas viagens foram maravilhosas e seus namoros são perfeitos, o Twitter, com suas palavras solitárias, se tornou um antro de reclamações e opiniões corrosivas sobre absolutamente qualquer coisa. Um pequeno hospício onde deprimidos e ansiosos se encontraram e buscam companhia em seus leitos domésticos.

Um reply me chamou atenção para o seguinte: não seria o caso dessa que tentou se matar algo a mais que uma simples depressão? Quem precisa tentar se matar “ao vivo na internet” e depois, debilitada, ainda continua presa à rede se importando com quem acha verídica ou não sua empreitada? Estaríamos falando de uma personalidade histriônica, que precisa chamar atenção a qualquer custo? Nesse caso, não importaria se a tentativa de tirar a própria vida se deu ou não; os resultados (polêmica) são muito semelhantes. Poderia também ser um caso borderline onde a pessoa usa dos recursos de se machucar e ameaçar/tentar se matar para chamar a atenção por medo de ser abandonada e por sentir um vazio (angústia) que só a dor física pode cessar.

Independente do que seja o diagnóstico, que não cabe a leigos, ou o julgamento, que não cabe a seguidores fazerem, ficou claro que mesmo em se tratando de um ambiente onde as doenças psíquicas reinam, quando se trata de um caso um pouco mais grave, as pessoas no Twitter não conseguem nem se identificar, nem amenizar o lado de quem, de qualquer forma, não tem como estar passando bem.

O pastor, o teatro e os Beatles

abril 8, 2013

Eu não estava querendo fazer nenhum comentário mais longo sobre a nossa nova F. word específica do Brasil, mas o dito cujo resolveu falar do John Lennon e todo mundo sabe que MEXEU COM OS BEATLES, MEXEU COMIGO. Na verdade, o vídeo em que o pastor fala que John Lennon morreu com 3 tiros, um do pai, outro do filho e o terceiro (adivinha) do Espírito Santo foi desenterrado de pregações passadas onde ele, entre outras coisas, também cita a morte dos Mamonas Assassinas. O que me chamou atenção ao assistir, no primeiro momento, foi a imprecisão total dos fatos que o pastor coloca. Ninguém esperava que ele desse uma aula sobre a história da música ou que ele soubesse de detalhes (facilmente encontráveis na Wikipédia) sobre a morte de John Lennon, mas se era para falar na frente de tanta gente, não custava se informar e evitar fazer uma adaptação tão patética do acontecido. A premissa é que John teria morrido por ter falado, em entrevista em 1966, auge da fama dos Beatles, que naquele momento os jovens davam uma importância maior ao grupo que a religiões e a Jesus Cristo, por exemplo, o que de alguma forma demonstrava o quanto ele se assustava com a fama. Essa declaração foi distorcida na época e gerou grande revolta e muitas pilhas de discos dos Beatles queimados nos EUA. Décadas depois, o pastor usa essa mesma fala para dizer que Lennon “se achava mais importante que Jesus”, o que teria ocasionado sua morte por 3 tiros (foram 5 disparados, sendo que 4 acertaram) dentro de seu apartamento (foi na rua, na frente do seu prédio) onde seu corpo teria sido ACHADO (algumas pessoas presenciaram o crime e ele foi encaminhado pro hospital, morrendo no caminho). Do jeito que o pastor fala realmente parece que os tiros vieram do céu, quando na verdade foram disparados por um fã esquizofrênico e obcecado, não “um tempo depois” da frase citada, mas após 14 anos.

 

Além da sequência de erros, me chamou a atenção a paixão com que o pastor profere sua interpretação. Há muito de teatral em sua fala e gestos, com o óbvio intuito de capturar a emoção e devoção daqueles que lá estão. O que me levou a pensar na quantidade de histórias que, como a de John, são alteradas para dar sentido ao discurso sensacionalista, sempre entoado com tom de fúria, julgamento e condenação. Enquanto discutimos sua presença na Comissão de Direitos Humanos, o pente fino no passado do pastor mostra que muitas igrejas precisam encontrar seus “diabos”, que em outras épocas já foram cientistas e bruxas e hoje são os gays. A discussão de leis que dão direitos aos gays como os de qualquer outra pessoa levará a sociedade a pensar neles como iguais, o que esgotará com um dos principais “assuntos” e razões de existir (combater) dessas igrejas. É uma pena que os pastores precisem tanto encontrar um inimigo, mas creio que, como todo drama, isso torna sua história mais interessante e cativa fiéis que acreditam em tudo que é dito por eles. Apenas poderiam se informar um pouco mais antes de falar tantas besteiras.

Novidade

março 14, 2013
Veio como um rap
Uma coisa que de tão nova e boa 
                    me apavorou

Sua vontade é tanta
É tamanha
Que quase me espanta
E me acorda quando adormeço
E me esqueço até de quem pra mim é mais

Doce! Verso, letra, data rasgada
Dia perdido, noite zuada
Caligrafia esperta; maldita tragada
Ponche verde do que a gente bebe
                  pra ser o que diz

Tremo tanto que esse frio é quase vaidade
E quando ele chega eu me abraço em verdade
Não sei se é dela que falamos tanto ontem
                             quem me diz?

Espero que o recado dado
          seja o pensado
E que a minha mentira
      te faça enganda
E que a novidade
já venha abusada

 

Neo-Mogli

março 6, 2013

É perfeitamente entendido por todos que o menino criado por lobos só saiba uivar, grunhir e tenda a caçar a própria comida. Eu, porém, busco a mínima simpatia e é raro encontrá-la quando digo que fui criado por um robô. À primeira vista pode parecer estranho, tendo em vista que meu arsenal de sentimentos é aparentemente rico e esses, por vezes, bem expressados. Mas a realidade é que sou pura máquina. Dura, ríspida, exata e alumínica. Aprendi a repetir como ninguém e bem melhor que um papagaio, que às vezes varia de tom e até de humor. Me programaram pra sentir muito, esperar pouco e agir quase nada. Se soubessem minha origem, não assustaria o olhar vítreo, a marcha manca e as panes inapropriadas. É exatamente assim que me sinto: escravo de um senhor que me fez sem propósito e a toda hora me pede sorrisos, poemas, floreios, graça; não vejo alguma. Não vejo porque nunca vi antes e não me inscrevi no dom de imaginar. Pelo contrário: me corrói as partes internas a menor ameaça de chuva, mesmo que não me toque; mesmo que até não chova. Me fizeram o pior tipo de máquina… com os melhores sentimentos humanos, mas completamente incapaz de usá-los para o bem, seja meu próprio ou de quem quer que seja.

 

Até se assustam com minha aparência frágil, orgânica, mas pode apostar que sou cobre e lata. Rondo ruas, mas não encontro iguais. Procuro peças que encaixem nas malditas engrenagens. Elas estão escondidas, talvez naquele escuro laboratório. Então sigo como a mais perfeita união entre as ciências humanas e exatas. Digno de um prêmio, uma homenagem ou um aperto de mão homem-máquina, firme e letal. Se me param na rua, finjo humanidade. Se me escolhem entre os outros, camuflo neutralidade. Se me perguntam o por que de existir, digo que existo porque o oxigênio nunca se cansa de me consumir, de oxidar minha existência até que ela não seja.

 

Uma lágrima. Cloreto de sódio e H2O não programados. Experiência única que escorre na alma do homem de lata e enferruja seu coração, o silício pulsante. Ainda que soubesse o que significa, não ousaria dizer por medo de atrapalhar o funcionamento natural de todas as coisas, essas sim produzidas por carne quente que sangra. Me recolho aos fundos do meu projeto. Me dobro às margens do meu desamparo eletrônico. Desejo tudo de melhor a todos que vivem de verdade e não só processam os erros, os traumas e as horas. Durmo meu desligar.

 

 

A paixão do geneticista

fevereiro 7, 2013

Estava muito relutante em escrever qualquer coisa sobre o assunto, principalmente já estando aos 59 minutos do terceiro tempo. O fato é que assistir à entrevista do Pastor Silas Malafaia no último domingo deixou tanto eu quanto vários amigos em estado de choque e a repercussão ainda não cessou, dias depois. Depois da polêmica da entrevista, tanto pelas falas do pastor quanto pela reação incomum da entrevistadora, surgiu o vídeo do geneticista, representando um certo “time adversário”, o da razão. Agora estamos num terceiro momento, em que até quem não concorda com o pastor também tem suas ressalvas em relação ao discurso do geneticista, como neste artigo que li hoje no site oene.

A minha ressalva sobre escrever sobre o assunto não vem tanto por todo mundo já ter falado tanta coisa, mas por eu achar o tema surreal: o simples fato de estar aberto o tópico de gays terem ou não os mesmos direitos que não-gays. Apesar dessa constatação chocante, também é fato que: “Todo mundo quer saber com quem você se deita.” (VELOSO, Caetano in A Luz de Tieta). Por isso, em pleno 2013, estamos aqui discutindo se as pessoas já “nascem gays”, “viram gays”, “escolhem ser gays”, entre outras opções. Creio que daqui a 50 anos vamos rir muito de pessoas já terem se preocupado com isso, mas no presente momento e em todo mundo, esta é uma questão relevante para as pessoas conseguirem formar uma opinião sobre o casamento e adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Vou expressar minha opinião sobre esses temas, mesmo achando que esse tipo de coisa seria melhor se já se desse por natural e não precisasse ser discutida. E usei “casal” de propósito, pois também considero vencida a noção de casal como sendo formado por um homem e uma mulher. Dizer que dois homens ou duas mulheres que se casam são “um par”, “uma dupla”, ou qualquer coisa parecida, só serve para causar estranhamento num assunto que já carrega muito mais estranhamento do que deveria.

Se as pessoas “nascem gays” ou não, não é algo que me fascine. Mas me fascina o fato das pessoas se fascinarem com essa questão. Eu sempre penso o seguinte: se a sexualidade é algo que o ser humano começa a expressar a partir da adolescência e da idade adulta, como ele poderia já nascer fadado a expressar determinada sexualidade? Será que alguém poderia, dentro do útero, já estar disposto a gostar de homem ou de mulher, sendo que ele nunca viu nem sabe o que é um homem ou uma mulher? Ou pensando numa situação esdruxula, do tipo Lagoa Azul: alguém que foi criado numa ilha deserta onde só tem contato com uma pessoa, poderia ser homo ou heterossexual “desde criancinha”, sendo que só soube da existência de outras pessoas do sexo oposto?

Eu acho que aí entra a questão da criação, do ambiente, do “aprendido”, mesmo que inconscientemente. Somos homens e mulheres que gostam de homens e/ou mulheres porque em algum momento na nossa infância até o início da puberdade nos situamos num mundo repleto de pessoas com diferentes sexualidades e gostos específicos em cada uma dessas sexualidades. Caberia falar rapidamente da teoria freudiana, sem querer explicá-la em detalhes, o que demoraria muito e só serviria pra confundir mais. O que o famoso “complexo de Édipo” dita é que em algum momento na tenra infância o menino se percebe (inclusive fisicamente, mas não somente) parecido com seu pai e, como ele, se apaixonaria por mulheres. Já a menina se perceberia semelhante com sua mãe. A questão física contribuiria para explicar por que existem mais héteros que gays no mundo. Ela é importante, porém não fundamental; tanto que muitos homens se identificam com suas mães e acabam gostando de outros homens e muitas mulheres se identificam com seus pais. Isso levanta a questão: crianças filhas de casais gays se tornariam gays por influência? Na verdade, não. Os pais serão influências importantes nas vidas dos filhos, porém não as únicas. Basta pensar em filhos (de ambos os sexos) que são criados por mães solteiras ou por pais solteiros. Ninguém questiona o que acontecerá com a sexualidade dessas crianças mesmo que o pai ou a mãe ausente da equação esteja morto. Isso acontece por que a ideia de “masculino” e “feminino” paira no ar (nos nossos inconscientes), mesmo que só tenhamos exemplos mais explícitos de um dos dois em casa. E a verdade é que dentro de cada um de nós existe masculino e feminino e a criança filha de um casal gay poderá eleger com naturalidade algum dos pais que ela sente ser mais “mãe” e outro que ela sente ser mais “pai”. Essa figura complementar pode vir também de fora do casal: através de uma avó, tio, madrinha, padrinho, babá, ou qualquer outra pessoa que fará parte da criação dela.

Essa é a parte que eu acho que nós poderíamos estar nos focando na discussão, ao invés de pensar se a pessoa já “vem gay de fábrica”, se aprende isso com alguém ou se ela tem condição de escolher o que gosta. O que ninguém falou até agora é: como estão as crianças criadas por casais gays? O pastor afirmou que essas crianças não têm condição de serem 100% felizes, normais ou o que quer que seja, que uma criança criada por um casal formado por um homem e uma mulher. É óbvio que ele está num plano completamente ideal, utópico, pois o que mais vemos por ai são famílias (de casais héteros) desestruturadas, com pais e filhos que se odeiam. Mas por que não perguntar para as próprias crianças, que, em países onde esse tipo de adoção acontece há décadas, já podem ser até adultos, se elas se sentem mal por terem sidos criadas por casais gays? Compará-las com outras crianças de sua geração, de sua escola. Eu uma vez li que, nos EUA, apesar de questões como o casamento e adoção serem tão polêmicas e complicadas como aqui, já existiam mais de 1 milhão de crianças que são criadas por pais gays. Eu acho que é um número mais do que suficiente para se fazer uma enquete e colocarmos de uma vez por toda de lado a teoria de que essas pessoas são de alguma forma mais infelizes ou incapazes do que as outras.

O que me parece é que organizações religiosas como a do Pastor querem é que as pessoas se sintam muito mal com o fato de serem gays para poderem procurar suas  igrejas a fim de serem “curadas”, se tornando suas fiéis e colaboradoras financeiras. Eles precisam de um inimigo para declararem guerra e legitimarem sua existência e, infelizmente, os homossexuais são um alvo escolhido por eles no momento que vivemos.

Se existe algo que nasce conosco que nos empurra mais pra uma direção de casinha sexual do que pra outra, é perfeitamente possível. Que a forma como somos criados e nos colocamos no mundo é um fator decisivo para a definição precisa dessa inclinação, é muito provável e observável. O que querem discutir levantando essas questões é se a igreja tem ou não o direito de ver pessoas como doentes simplesmente a partir de suas práticas sexuais. E pior: se essas mesmas igrejas devem fazer pressão para que leis que tragam direito iguais aos dos não-gays para os gays não sejam aprovadas. Para mim, isso tudo soa obscuro demais. Quanto mais eu leio sobre e me sensibilizo ao comportamento humano, mais eu percebo como somos todos tão parecidos e que o problema surge, justamente, quando alguém começa a achar o outro diferente demais.